Corpes insurgente-mente revolucionários
Resumo
Decidi participar da seleção deste dossiê ‘Movimentos sociais trans: memória, ativismo e resistência’ com três propostas de publicações poéticas, as quais defino, na verdade, como prosas poéticas. Toda a carga de conteúdo se esbarra na relação dialógica entre coletivo e indivíduo, entre mim e as comunidades que me deparei ao longo da minha vida, cujas vivências são sintetizadas em estrofes ao narrar dilemas, posicionamentos e afetos.
A primeira poesia chama-se ‘Da demissão à depressão: $u!c!d!0 não!’. Nela, fiz um retrato dos meus maiores conflitos existenciais quando saí da empresa onde trabalhei no setor de engenharia. Apesar de ser formade em Jornalismo, sou estudante de Engenharia de Controle e Automação e conquistar aquele trabalho foi um marco para a minha vida profissional em termos de condições de trabalho e identificação com as tarefas propostas. Contudo, a transfobia e o lesbo-ódio tornaram essa experiência algo angustiante, até o processo da demissão – quando entrei em depressão. Daí, transformei todo o emaranhado de sentimentos, emoções e pensamentos em lírica poética.
Em seguida, a segunda prosa poética, ‘Beije o seu Transmasc em público’, quebra o peso da carga emocional anterior, quando apostei em um ritmo cíclico de repetições ao convocar a sociedade a não invisibilizar e/ou marginalizar o afeto por corpos transgênero. E os corpos transmasculinos também fazem parte dessa vivência, sendo tão fetichizados, objetificados e excluídos da lógica de amor romântico comercializada em nossa sociedade quanto outras vivências trans. Além disso, provoco a comunidade lésbica a repensar o seu sujeito central serem exclusivamente as mulheres, afinal, mesmo sendo trans não-binárie, também sou ume lésbica que narra sobre o afeto por boycetas.
Na última aposta, apresento ‘Há feto de amô’, a prosa poética na qual escancaro a pessoa por quem meus suspiros mais íntimos são confeccionados. Decidi por ela, pois finaliza a tríade com a possibilidade de corpes transgêneros e dissidentes conhecerem narrativas de afetos possíveis, rompendo – um pouco – com a lógica de alienação em relação ao amor que a sociedade capitalista patriarcal cisgênera nos impõe. Afinal, nossas narrativas sobre violências são inevitáveis, por outro lado, produzir fissuras de resistência com companheirismo e carinho são formas de contestar a ordem que nos sufoca, tornando possível respirar ainda nesta sociedade (des)humana.
Em suma, os três trabalhos são inéditos, escritos ainda em 2025. E em toda a minha subjetividade há a necessidade de apresentar narrativas que coloquem o modo de produção capitalista e sua sociabilidade constituída por todas as estruturas de opressões como causa central dos problemas da humanidade na contemporaneidade. Bem como refletir e apresentar modos de vida possíveis, em diálogo com diversas comunidades, para resistir e transformar a vida humana, sempre com ternura entre os nossos.
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